Ele morreu

Publicado: 2015/10/07 em Uncategorized

By Ricardo Gondim

Deus morreu,

Não fui em quem o matou. Ele não se auto-extinguiu. Deus simplesmente deixou de ser relevante. Sumiu coberto de poeira. E gora jaz em um canto escuro da humanidade. Quem sabe esteja sepultado em alguma vala de Auschwitz, ou calcinado em Hiroshima.

Qual Deus simplesmente sumiu?

Morreu o Deus relojoeiro. Aquele que criou uma enorme engrenagem, deu-lhe o primeiro movimento e a deixou rolar em trilhos exatos e inexoráveis. A divindade fria, que Aristóteles chamou de Motor Imóvel, merece continuar confinada aos livros da filosofia e da teologia. Ele não passa de uma abstração – por vezes lúcida, por vezes cruel. Discutir as implicações dos atributos “oni” (onipresença, onipotência, onisciência) serve bem a quem gosta de especular sobre o que a razão falha em alcançar. Raciocinado como absoluto, esse Deus se condena à paralisia. Sua absoluta perfeição o encantona, e sua absoluta pureza o ostraciza.

Morreu o Deus legislador. Aquele que estabeleceu desde o começo leis fixas, cercadas de bênçãos e maldições. O mundo que se organizou a partir da compreensão de que as regras de convívio eram ditadas por uma divindade, que arbitra desde os fios que tecem as roupas a outras questões como a impureza das mulheres menstruadas, a escravidão, a morte sumária de adolescentes rebeldes e os alimentos que devem ser considerados imundos, está preso a um conservadorismo anacrônico.

Morreu o Deus fiscal. O grande Olho, vigilante implacável, que está em toda parte para cobrar comportamentos e punir transgressões, não respeita liberdades individuais. Esse Deus viola privacidades com sua indiscrição. Com ele, a autonomia humana fica comprometida; todos precisam de espaço para se desenvolverem sem um magnífico bisbilhoteiro a espiar, dos banheiros às alcovas.

Morreu o Deus predestinador. Esse que sabe de antemão todos os acontecimentos por tê-los (providencialmente) determinado, não deixa nenhum espaço para as iniciativas individuais ou coletivas. Se Deus inviabiliza o inédito, também cria o tédio. A divindade olímpica puxa cordões e os humanos feito marionetes, dançam, choram, trabalham e edificam só para cumprirem seus desígnios imutáveis. O Deus soberano é responsável pelo fatalismo. Se é autor e protagonista único da história, ele contradiz o propósito que diz tê-lo motivado a rodear-se de homens e mulheres: o de gestar liberdades.

Com a morte de Deus, é preciso nascer outro Deus.

É preciso nascer o Deus universal, que não é a divindade tribal que abençoa apenas os seus, que faz chover apenas no pomar dos obedientes e que prospera apenas os que são parte de uma mesma etnia, religião ou cultura.

É preciso nascer o Deus interpelador. Se a divindade dos salvamentos espetaculares, que visita a humanidade ocasionalmente, não faz nenhum sentido, o Deus que entusiasma, que dá fome e sede de justiça, que convoca à solidariedade, continua essencial. Deus jamais cessa de convocar, cutucar, chamar e sensibilizar mulheres e homens para a gentileza, para a mansidão, para a compaixão.

É preciso nascer o Deus mistério. Ele é sempre maior, sempre mais fascinante, sempre mais desconcertante que a mente humana pode imaginar. Deus está para além das consoantes e vogais do substantivo que formam seu nome. Ele excede todos os compêndios de teologia, todas as imagens esculpidas ou pintadas e todos os conceitos formulados. Nenhuma teologia o exaure, nenhuma filosofia o explica, nenhuma ciência o prova.

É preciso nascer o Deus empático. Deus é amor. Só o amor, as relações de estima e os gestos gentis reconhecem que nele, as margens serão oceânicas. O amor que tudo sofre revela que Deus se interessa com a nossa sorte; e se aflige com o que nos prejudica. O amor que tudo espera revela que Deus não desiste de nós; e que tem esperança que possamos reverter todos os processos antivida. O amor que tudo suporta revela que Deus se dispõe a receber as mesmas pancadas que nós (a cruz carregada tal significado); e que não nos abandonará à nossa própria sorte.

Deus morreu, porém o Verbo se fez carne. Portanto, Deus nasceu.

Seu nome, agora, é Emanuel.

Original: http://www.ricardogondim.com.br/estudos/deus-morreu/

Anúncios

E você, o que pensa a respeito?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s